Canetas emagrecedoras: os riscos da automedicação

A descoberta do GLP-1 (peptídeo semelhante ao glucagon tipo 1), foi um grande avanço da medicina. Esse hormônio, produzido naturalmente após as refeições, demonstrou ser estimulador da produção de insulina. A partir desse conhecimento, foram desenvolvidas medicações capazes de imitar o GLP-1 naturalmente produzido no organismo, e em 2005, os análogos artificiais do GLP-1 modificaram o prognóstico do diabetes mellitus tipo 2 (DM II). Recentemente, essa proposta de tratamento foi ampliada pelo desenvolvimento dos análogos do GLP-1 em associação ao GIP (peptídeo insulinotrópico dependente de glicose), outro hormônio liberado após a alimentação, que participa do controle glicêmico ao estimular a insulina. Apesar de serem propostos para tratamento do DM II, observou-se promoção da saciedade e retardo do esvaziamento gástrico, favorecendo a redução da ingestão alimentar e, consequentemente, o emagrecimento. Por essa razão, a associação desses hormônios ganhou destaque sobretudo no tratamento da obesidade, doença crônica que afeta até 40% da nossa população, segundo dados do Ministério da Saúde. Daí veio o apelido de “canetas emagrecedoras”. Paralelamente ao progresso científico, há um fenômeno sociocultural imediatista impulsionado pelas redes sociais as quais atuam como poderosos canais de publicidade que, ao transformarem o corpo humano em produto de constante exibição e julgamento estético, perpetuam soluções rápidas para atender a padrões de beleza. Estudos recentes apontam que cerca de 68% dos usuários iniciaram o uso das “canetas emagrecedoras” sob influência das redes sociais e 53% utilizam essas medicações sem prescrição médica. A alta demanda do mercado favoreceu a proliferação de falsificações, fórmulas manipuladas sem registro e contrabando sem procedência. Essa prática de uso indiscriminada, sem indicação médica e de forma recreativa pode anular os benefícios e expor as pessoas a riscos que vão de náuseas e vômitos persistentes, desidratação e constipação crônicas, irritabilidade e dificuldade para dormir, perda de massa muscular e queda de cabelo até complicações severas como sangramentos digestivos e pancreatite aguda. A ciência nos entregou uma ferramenta extraordinária para melhorar a qualidade de vida a milhões de pessoas que não pode ser banalizada, o medicamento não é uma mercadoria de consumo, exige critérios rígidos de indicação e respeito ao próprio corpo.







