O povo bestializado

“O povo assistiu àquilo bestializado...” (Aristides Lobo, jornal Diário Popular, 18/11/1889) Essa frase do jornalista Aristides Lobo ficou eternizada na história da República do Brasil. Referindo-se à passagem da Monarquia para a República, o jornalista destacava o quanto o povo assistiu atônito, sem nada entender, a mudança do regime. A frase foi tão expressiva que, em 1987, o historiador José Murilo de Carvalho publicou a obra intitulada: “Os bestializados: o Rio de Janeiro e a República que não foi”. A obra retomou a frase para demonstrar como parte da população assistiu à mudança de regime, em especial aqueles que presenciaram, na capital, a tomada do poder por Deodoro. À margem das decisões, quase boquiaberto, assim foi o modo como o povo presenciou tudo isso. Ao recortar o espaço para a nossa Barretos, encontramos um exemplo disso. Há duas semanas, essa historiadora publicou a crônica “O Anchieta de Barretos”, na qual se referia ao cel. João Carlos de Almeida Pinto, bravo republicano que vivia na cidade. A história daquela crônica ajuda a entender o comportamento da população sertaneja, mais carente, diante da mudança para a República. Sem entender direito o que acontecia, a crença em boatos e em grandes conspirações podia repercutir até em ações violentas. O caso de Barretos aconteceu cerca de três meses após o 15 de novembro. Acreditando que os republicanos eram contra os padres e o catolicismo, na véspera de eleição, um grupo de sertanejos, vindos do Marimbondo, deslocou-se até Barretos com a intenção de proteger o padre Valente contra um possível ataque e de impedir à queima da igreja. Resolvida a questão, o delegado fez questão de pedir ao Cel. Almeida Pinto que fossem realizadas conferências no Grêmio Republicano para explicar aos cidadãos sobre as eleições e o novo regime, a tal da República. As armas foram trocadas pelas palavras. Interessante que, até os dias atuais, há sempre o perigo de o povo brasileiro assistir às mudanças políticas “bestializado”, sem nada entender, sem participar ou acreditando em conspirações e boatos. É preciso aprender com a própria história, ela está aí. Viva.







